Como sair das dívidas: o método avalanche passo a passo
Publicado em · 5 min de leitura
Para sair das dívidas, faça uma lista com saldo e juros de cada uma, pague o mínimo de todas e coloque todo o dinheiro que sobrar na de juros mais altos. Quando ela acabar, passe o valor dela para a próxima da lista. Esse é o método avalanche: é a ordem que faz você pagar menos juros no total.
Por que começar pela dívida de juros mais altos?
Porque juros são cobrados sobre o saldo. Cada real que você tira de uma dívida de 9% ao mês deixa de gerar 9 centavos de juros no mês seguinte. O mesmo real numa dívida de 6% ao mês economiza só 6 centavos. A diferença parece pequena, mas se repete todo mês, sobre um saldo que cresce.
O próprio Banco Central, no seu Caderno de Educação Financeira, recomenda mapear as dívidas (valor, prazo e taxa de juros de cada uma), não fazer dívidas novas e procurar trocar as de juros elevados por outras de juros menores. O avalanche é a forma organizada de fazer isso com o dinheiro que sobra no mês.
Passo 1: coloque todas as dívidas numa lista
Para cada dívida, anote:
- Saldo de hoje (quanto falta pagar, não o valor original);
- Juros ao mês (está na fatura, no extrato ou no contrato);
- Pagamento mínimo ou parcela obrigatória.
Inclua tudo: cartão, cheque especial, empréstimos, carnês de loja, dívida com parente. Se a taxa estiver só "ao ano", peça ao credor a taxa mensal ou use a calculadora mais abaixo, que faz a conta.
Passo 2: descubra quanto sobra por mês para as dívidas
Some o essencial do mês (moradia, comida, transporte, contas da casa) e veja quanto sobra da renda. Esse é o valor total que você pode colocar nas dívidas sem deixar faltar o básico. Se não souber por onde começar, a calculadora de divisão do salário dá uma referência de quanto vai para cada parte.
Seja realista. Um plano que exige apertar demais costuma quebrar no segundo mês, e aí a dívida volta a crescer.
Passo 3: pague o mínimo de todas e o extra na mais cara
Todo mês, primeiro garanta o mínimo de cada dívida, para evitar multa e atraso. O que sobrar vai inteiro para a dívida de juros mais altos, não para a de maior saldo nem para a mais antiga.
Quando essa dívida acabar, o valor que ia para ela (mínimo + extra) passa para a próxima da lista. O pagamento vai "rolando" e ficando maior, por isso o nome avalanche.
Exemplo: avalanche × bola de neve
Imagine três dívidas, com as taxas médias que o Banco Central registrou para pessoas físicas em agosto de 2026, e R$ 800 por mês para pagar tudo:
| Dívida | Saldo | Juros ao mês | Mínimo |
|---|---|---|---|
| Fatura parcelada do cartão | R$ 2.000 | 9,34% | R$ 200 |
| Cheque especial | R$ 1.000 | 7,43% | R$ 100 |
| Crédito pessoal | R$ 4.000 | 6,39% | R$ 300 |
As taxas mensais do cartão parcelado (192,08% ao ano) e do crédito pessoal (110,22% ao ano) foram convertidas de ano para mês. Sobram R$ 200 por mês além dos mínimos. Simulando mês a mês:
| Ordem do dinheiro extra | Meses até zerar tudo | Juros pagos no total |
|---|---|---|
| Avalanche (juros mais altos primeiro: cartão → cheque especial → pessoal) | 15 | R$ 4.236 |
| Bola de neve (menor saldo primeiro: cheque especial → cartão → pessoal) | 15 | R$ 4.420 |
Com a mesma renda e no mesmo prazo, o avalanche economiza cerca de R$ 184 neste exemplo. Quanto maior a diferença entre as taxas e maiores os saldos, maior a economia. É uma conta simplificada, com taxas fixas e sem multas, só para mostrar a lógica. Para fazer com as suas dívidas, use a calculadora:
E o método bola de neve, funciona?
Funciona, por outro caminho. No bola de neve você quita primeiro a dívida de menor saldo, mesmo que os juros dela sejam menores. A vantagem é comportamental: ver uma dívida sumir cedo dá ânimo para continuar. No exemplo, o cheque especial sai no 4º mês pelo bola de neve; no avalanche, a primeira dívida (o cartão) só acaba no 8º mês.
Se você sabe que precisa de uma vitória rápida para não desistir, o bola de neve pode ser o seu método, mesmo pagando um pouco mais. O pior plano é o que você abandona. Mas, se a diferença de juros entre as dívidas for grande, como entre o rotativo do cartão e um consignado, o avalanche tende a ganhar com folga.
Passo 4: tente baixar os juros das dívidas mais caras
O avalanche diz em que ordem pagar. Mas também dá para reduzir a taxa de cada dívida:
- Renegocie com o credor: prazos e taxas podem mudar.
- Troque por um crédito mais barato, como a portabilidade para outro banco. Explicamos os cuidados em como trocar dívida cara por dívida barata.
- Quite antes quando sobrar dinheiro. O Código de Defesa do Consumidor (art. 52) garante desconto proporcional dos juros quando você antecipa parcelas.
Se a dívida mais cara é o cartão, comece por como sair do rotativo. Se é o limite da conta, veja como sair do cheque especial.
Passo 5: não crie dívida nova enquanto paga as antigas
Parece óbvio, mas é o ponto mais fácil de escorregar. Enquanto estiver pagando, evite parcelar compras novas e usar o limite da conta. Se surgir um gasto que não dá para adiar, ajuste o plano daquele mês em vez de pegar crédito caro.
Quando a renda não fecha: superendividamento
Se, mesmo cortando gastos, as parcelas comprometem o que você precisa para viver, você pode estar em situação de superendividamento. A Lei 14.181/2021 incluiu no Código de Defesa do Consumidor a possibilidade de pedir uma repactuação das dívidas de consumo, reunindo todos os credores numa audiência de conciliação. O plano de pagamento pode ter prazo de até 5 anos. Esse pedido pode ser feito na Justiça, e os órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, também podem conduzir a fase de conciliação.
O próximo passo
Hoje, só a lista: saldo, juros e mínimo de cada dívida. Com ela pronta, coloque os números na calculadora de dívidas e veja a ordem e a data em que você fica livre.
Perguntas frequentes
Qual dívida pagar primeiro?
Pela matemática, a de juros mensais mais altos, mantendo o pagamento mínimo das outras. É ela que mais cresce a cada mês, então cada real colocado nela evita mais juros do que em qualquer outra dívida.
Qual a diferença entre o método avalanche e o bola de neve?
No avalanche, o dinheiro extra vai para a dívida de juros mais altos. No bola de neve, vai para a de menor saldo, para quitar uma conta rápido e ganhar ânimo. O avalanche costuma pagar menos juros no total; o bola de neve pode ajudar quem precisa de uma vitória cedo para não desistir.
O que fazer se a renda não cobre nem o mínimo das dívidas?
Procure os credores para renegociar prazos e taxas e corte o que for possível no orçamento. Se mesmo assim as dívidas de consumo comprometem o mínimo necessário para viver, a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021) permite pedir uma repactuação com todos os credores, com plano de até 5 anos, pela Justiça ou pelos órgãos de defesa do consumidor, como o Procon.
Vale a pena pegar um empréstimo para quitar outras dívidas?
Só se o novo empréstimo tiver Custo Efetivo Total menor que o das dívidas que ele vai quitar e se você não voltar a usar o crédito caro. Senão, a dívida só muda de lugar e pode até crescer.
Fontes
- Banco Central — Caderno de Educação Financeira: Gestão de Finanças Pessoais (seção Endividamento)
- Banco Central — taxa média de juros, pessoas físicas, cartão de crédito parcelado
- Banco Central — taxa média mensal de juros, pessoas físicas, cheque especial
- Banco Central — taxa média de juros, pessoas físicas, crédito pessoal não consignado
- Código de Defesa do Consumidor, arts. 52, 54-A, 104-A e 104-C (Lei 14.181/2021) — Planalto
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